quarta-feira, 19 de abril de 2017

Veneno

Eu sangrei menos
quando me passei por outro.
A hemorragia foi interna.
Agora, outro se passou por mim
e eu fiquei aqui sangrando.
Também fiz sangrar
a quem agredi.
Foi o tal tumor da ira.

Deve se sentir assim
o melhor assassino.
Quem melhor mata,
se mata aos poucos.

Melhor deixar passar
quem tem verdadeira pressa.
Melhor adiar o erro
já que o depois não existe.
Melhor ser melhor agora
enquanto eu sou eu.

A minha revolta pode ser eu.
O meu isolamento também.
A minha acidez e a careta.
O meu veneno também,
desde que eu não seja peçonhento. 

Apenas quem eu sou
já me faz pessoa inteira.
Não preciso sair do eixo. 
Sou lua cheia de fases.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Impressão

um cavalo imprime no solo
um C de casco
um C de calçado
um C de correr
um C de cavalgar

eu, no meu passo analfabeto,
deixo muito pouco pra se ler

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Quase gente

um tanto egoísta
mas gente
um pouco além da proposta
indiferente
querendo mais do que um animal
inconsequente

e ainda ama
quem engole
ou será que mata
o que recolhe
no coração
aquele sentimento
longe da mão
escondido no peito

dentro do uniforme
mas gente
um pouco sanguinário
mas gente
visando ser proprietário
de perfeição deficiente

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Desafinar

Indignado
Quando o que digo faz sentido
E alguém discorda
Esse alguém é aquela pessoa
Que diz sempre não

Indignado
Quando critico o estuprador
Pelo seu gosto musical
E sou julgado
Por julgar o horror

Indignado
Porque tenho oposição
Não ter apoio surpreende
Preciso de um cofre
Descobri que tenho segredos

Pior que desafinar cantando
É desafinar falando

sábado, 14 de janeiro de 2017

Uma palavra, uma virada

Meu bem se transformou;
em apenas trinca segundos,
mudou.
Virou testa enrugada,
depois que ouviu,
entortada palavra.

Fui eu quem disse,
se antes de tudo pensasse,
talvez eu não fosse.

Não que seja impulso,
não que me fugiu o pulso:
ficou entre intenção e uso.

Que viver não seja
poesia pensada,
tal antiga prosa cantada,
mesmo todo cão deseja
saber quando não lamber
a mão errada.

A guerra, invenção distante,
não vê no dia-a-dia
o amigo ou parente.
Nem escuta a praga
rogada tão próxima
entre um e outro dente.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Angústia

Anseio
Antítese
Anestesia 

Anos
Antes
Antecipação

Ancinho angariando analogias
Anel anal: angustiada anatomia

Animais
Animados
Aniquilação

Anêmona andando: anomalia
Ancorada ancora antagoniza

Ah, não!
Ah, não!
Ah, não!
An...
An... 
An...