segunda-feira, 27 de junho de 2016

O limite no horizonte

Dura foi a cama que dormi
duro foi o frio que escolhi
e deixei o meu quarto
pra chegar longe

Escolher o de sempre
nem chega a ser escolha
tal riacho que corre liso
sem nem fazer bolha

Escolher o de sempre
nem chega a ser falha
sem tentar sair do rumo
tudo mais sempre calha

Dura foi a trilha de pedra
duro foi o sono na terra
e deixei o meu rastro
naquele horizonte

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Enfeitiçados

Ainda deito a minha cabeça na tua coxa,
pensando entre uma besteira ou outra
que poderíamos ser outros.

Ainda questiono a força que nos puxa,
tal qual o feitiço de alguma bruxa.
Onde estaríamos separados?

Nós muito pouco mesmo escolhemos.
Nós que apenas um ao outro temos;
a força nos tem bem ligados.

E se tentamos nos rebelar, cansamos.
Ao agredir o outro nos machucamos.
A força nos tem enfeitiçados.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Folhas empilhadas

Folhas empilhadas ainda parecem leves
Parecem ser transparentes de conteúdo
Até que se tome uma nas mãos
E se leia as entrelinhas

Entrelinhas são esqueletos traiçoeiros
Deixados pelos legistas legislativos
Documentos que fazem pesar
Mais do que a sua tinta

Os homens estão presos embaixo delas
Os homens assinam em cima da linha
Os homens estão abaixo delas
Das folhas que ditam

Redigimos de acordo com leis ditadas
Palavras de papel que nada nos falam
Somos mandados ao vento
Folhas de árvore cortada

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Poema menos concreto

Abandonei o meu sonho de mansão
por uma poesia menos concreta.
Encontrei o meu sonho de mansinho
quando vi a porta que inexistia aberta.


segunda-feira, 30 de maio de 2016

Homem constritor

você que mora perto
mas não vê o abismo
não ame o homem
ame o homem que digo
o paredão é verdadeiro
mas a queda é no vazio

estou perto do buraco
nem sei porque insisto
você está no lugar errado
mais perto e te complico
você espera o esperado
eu erro até no paraíso

não me entenda mal
sempre existe algo pior
flor e espinho é normal
todos querem ter a flor
enquanto o espinho é anel
o dedo escapa da dor

você que chega perto
nem sabe quem eu sou
meu abraço é um aperto
que esmaga o que sobrou
da beleza e do afeto
de quem me abraçou


segunda-feira, 16 de maio de 2016

Aos 43 anos do meu tempo

Nem posso falar que voei
sobre as montanhas
pra ser poeta.
Mas caminhei sobre as rochas
das mesmas montanhas
pra ser humano.

Nem queria falar das flores
e das drogas
que fazem aflorar algum imo.
Mas eu vi as flores
e preferi a cachaça
pra continuar brasileiro.

Nem posso falar que falei tanto,
se no fundo sempre ouvi,
e assim aprendi muito.
Mas errei ao abrir a boca,
e tenho muitas ideias,
e apenas por isso eu sou.

Nem deveria lutar tanto
apenas pra ser um grito,
pra ser ouvido.
Eu me incomodo demais,
mas um dia acordo
e serei as cinzas da vez.

Nem sinto que contribuo;
sou apenas um artista
por ser artista.
Se sentirem falta da cereja,
sou a pitanga
da receita do meu bolo.