segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Coração nu

O meu coração está em cima da mesa.
Você pode usar os talheres.
Isso não quer dizer que você possa comê-lo.
Ele pode ser amargo.
Você pode apenas querer feri-lo.

Nem tudo em cima da mesa é comestível.
Nem tudo em cima da mesa está cozido.
Nem todos à mesa sentem fome.
Nem todo coração agrada ao estômago.

Na falta de cartas, o meu coração.
Sem a caixa torácica em volta, ele é assustador.
Ele bate sem dó.
Você se defende?
Essa resposta eu sei de cor.

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Esconderijo 33

O grão.
Eu atrás do grão.
Só uma imagem artística.
Surrealismo que se cria para se esconder algo maior.

A vida.
Eu atrás da vida.
Só vivo eu faço sentido.
Não há nenhum esconderijo do tamanho de um grão.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O segundo da morte

O segundo da morte resolve tudo;
definitivo, agudo.
Nem mais um pingo;
o fim do dilúvio.

Nascer entre rochas é árido também.

Depois de todo o dia,
de segundo em segundo,
a diária agonia.
Afinal, o segundo eterno.

E sair do ovo também é agonia.

A renovação da vida parece durar
até a primeira ferida.
Algo que pontua a vida
que definha num ciclo incerto
que a ninguém pertencia.

Sofrer não some;
só muda de nome.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

A rocha

a rocha se foi 
consumida lentamente
como acontece com quem resiste

não haverá mais ritual
ao redor da rocha
como acontecia todos os dias

na sua dureza
existia algo de paciência
ao se conformar com o movimento à sua volta

na sua humildade
não pedia nada demais
apenas alívio dos parasitas do mal

nunca disse não
nunca exigiu um sim
se contentava com um talvez sem dor

foi firme ao apoiar
se calou quando sem apoio
foi dispensada morro abaixo sem valor

a rocha se foi
afundou com a terra
me ensinou que na superfície ninguém é superior